George Orwel fiel a seus princípios


Nascido há mais de um século, o revolucionário e radical George Orwell continua atual. "1984", o livro mais conhecido do autor que criou expressões como "guerra fria" e "Big Brother", chega agora aos 60 anos.


por Sergio Amaral Silva (*)



"Se a liberdade significa alguma coisa, será, sobretudo, o direito de dizer às outras pessoas o que elas não querem ouvir." "1984", George Orwell
Ilustração David Singhiser
George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair, nascido em Bengala, na Índia sob dominação inglesa, em 25 de junho de 1903. Sua mãe tinha ascendência francesa, e seu pai era um funcionário civil da marinha britânica. O garoto foi educado na aristocrática Academia de Eton e, desde cedo, mostrava sua decepção com a sociedade de que fazia parte, revelando uma precoce rebeldia intelectual.
Aos 19 anos, entrou na polícia imperial britânica, passando os cinco anos seguintes entre a Índia e a Birmânia (atual Mianmar). Nesse período, revoltou-se contra a política colonial opressora da Inglaterra, desertando em 1927. Da experiência resultariam alguns de seus primeiros ensaios e seu romance de estreia, "Dias na Birmânia", publicado em 1934.
No final dos anos 1920, de volta à Europa, Blair renegou sua origem, sua fortuna e o próprio nome, por considerá-los vergonhosos. Adotou o pseudônimo de George Orwell e passou a viver como operário de fábrica em Paris e depois como professor primário em Londres. Em 1933 sairia seu relato sobre essa vivência de miséria e falta de liberdade, "Na Pior em Paris e Londres". Foram tempos difíceis para o escritor, que em 1935 publicou A "Filha do Reverendo" e, em 1936, "Keep the Aspidistra Flying".



CRÍTICA
Se Orwell se deixasse abater pelos obstáculos iniciais, teria encerrado prematuramente a carreira. Um exemplo? Um de seus primeiros trabalhos recebeu da crítica o amável comentário de que ele escrevia "como uma vaca com uma espingarda"...
Alguns anos mais tarde, Orwell já começava a ser reconhecido como um autor de talento, ao mesmo tempo em que adotava atitudes cada vez mais radicais. Assim, engajar-se na Guerra Civil Espanhola , que começou em 1936, foi para ele um ato natural. Conforme suas próprias palavras, "reconheci imediatamente que era um estado de coisas pelo qual valia a pena lutar".

Em 1937, publicaria "O Caminho Para Wigan", narrando a extrema pobreza dos trabalhadores das minas do norte da Inglaterra. No livro, afirmou que desejava "escapar de toda forma de dominação do homem sobre o homem".
No mesmo ano, foi para a Catalunha, onde se alistou para lutar contra o fascismo ao lado dos anarquistas do Partido Operário de Unificação Marxista, o POUM . Foi para a frente de batalha.
Em Barcelona, ele e seus companheiros começaram a ser perseguidos pelos comunistas, que deviam ser seus aliados. Isso acabou revelando o caráter duplo da posição dos russos.


A Guerra Civil Espanhola
(1936-1939)
Opôs de um lado forças ultranacionalistas e fascistas, aliadas às classes e instituições tradicionais da Espanha, e, do outro, forças socialistas, representadas pela Frente Popular, com o apoio de sindicatos e partidos de esquerda. Muitas personalidades internacionais acompanharam de perto o conflito: como correspondentes de guerra, por ali passaram, entre outros, os fotógrafos Robert Capa e Gerda Taro, os escritores norte-americanos Ernest Hemingway, John dos Passos e Dorothy Parker, além de Erika e Klaus Mann, filhos do escritor alemão Thomas Mann. O escritor francês André Malraux, que posteriormente se tornaria ministro da Cultura da França, participou ativamente em missões aéreas de reconhecimento e ataque. George Orwell foi integrante das milícias do Partido Operário de Unificação Marxista (Poum) da Catalunha e relata a experiência no livro "Lutando na Espanha".







"Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o ombro. Era Quitéria. Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o fundo do grande celeiro,onde estavam escritos os Sete Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a parede alcatroada com o grande letreiro branco. Minha vista está falhando - disse ela, finalmente.
- Mesmo quando eu era moça não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas parece-me agora que parede está meio diferente.Os Sete Mandamentos são os mesmos de sempre, Benjamim? Pela primeira vez, Benjamim consentiu em quebrar sua norma e leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora, senão um único Mandamento, dizendo:

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OS OUTROS " ("A Revolução dos Bichos", George Orwell)
Ilustração Kuco
O quadro Guernica, óleo sobre tela de autoria de Pablo Picasso, foi inspirado pelo bombardeio da cidade de Guernica, capital da província Basca, no dia 26 de abril de 1937. Aviões alemães da Legião Condor atacaram a cidade por ordem do General Franco. Dos 7.000 habitantes, 1.654 foram mortos e 889 ficaram feridos. A destruição de Guernica foi a primeira demonstração da técnica de bombardeamentos de saturação, mais tarde empregada na Segunda Guerra Mundial. O mural pintado por Picasso retrata a desgraça que abateu a cidade: durante as 2 horas e 45 minutos, os moradores de Guernica sofreram com os bombardeios. Muitos, desesperados, correram para os arredores do lugarejo e foram atingidos por rajadas de metralhadora disparada pelos caças alemães.
Deu baixa após um ferimento a bala no pescoço e voltou à Inglaterra, tendo escrito em 1938, "Homenagem à Catalunha", que saiu no Brasil com título de "Lutando na Espanha". A partir desse livro, um amargo e desencantado testemunho ocular da guerra, consolidase seu objetivo literário. Como o autor afirmaria no ensaio "Por que Escrevo", de 1946, o de "transformar a escrita política em arte". E acrescenta: "Escrevo porque existe alguma mentira para ser denunciada, algum fato para o qual quero chamar a atenção, e penso sempre que vou encontrar quem me ouça."
DESAFETOS
Ainda em 1938, contraiu tuberculose e passou uma temporada em Marrocos, onde escreveu a novela "Coming Up For Air", publicada em 1939, ano em que começou a segunda guerra mundial. Orwell pensou em lutar, mas foi declarado fisicamente inapto. Ilustração Kuco Depois de sua intensa vivência espanhola, ele se mostrou decepcionado com os partidos comunistas, com sua estrutura rígida e obediência irrestrita a Moscou. Se por um lado sua postura de socialista revolucionário se fortaleceu, ao mesmo tempo cresceu nele o anti-stalinismo, levando-o a uma espécie de socialismo independente. Em 1941, trabalhando para a BBC, escreveu o ensaio "O Leão e o Unicórnio". Na época, defendia a nacionalização "da terra, das minas, das estradas de ferro, dos bancos e das principais indústrias". Ainda durante a guerra, serviu num corpo civil para defesa local.

"A REVOLUÇÃO DOS BICHOS"
Além do fascismo e do imperialismo, outros grandes inimigos de Orwell eram a desonestidade de propósitos e as atitudes politicamente ambíguas dos que apoiavam o regime comunista de Stalin. Isso ficou ainda mais claro quando, na Segunda Guerra, a União Soviética se aliou ao Ocidente contra Hitler. Em 1943, Orwell tornou-se editor literário do jornal Tribune e começou a elaborar uma fábula que exibisse o totalitarismo e a face burguesa da Rússia. Ali, os comunistas eram representados pelos porcos de uma fazenda inglesa dirigida por animais: "A Revolução dos Bichos". Naquela circunstância, "estar disposto a criticar a Rússia e Stálin é a prova da honestidade intelectual", afirmou em agosto de 1944. Vários editores britânicos se recusaram a lançar o romance, temendo criticar o aliado inglês na guerra. Finalmente, o livro acabou saindo, em 1945. Foi um acontecimento literário, que ajudou a alertar o Ocidente sobre a verdadeira natureza do regime de Moscou.
Nesse trabalho, o autor superou em definitivo a trama muitas vezes pobre de suas primeiras novelas, tratando com desenvoltura seu argumento, num cenário que lhe era muito familiar. Afinal, era apaixonado pelo campo, onde vivera no fim dos anos 1930. Na sátira, ele criticava duramente a corrupção pelo poder, indo do particular para o geral. Essa habilidade, aliás, constitui um dos pontos fortes da obra de Orwell, principalmente nos ensaios sobre política.
"1984"
Com o fim da guerra, Orwell foi para uma ilha na Escócia. Lá, aprofundou sua condenação ao autoritarismo de todos os gêneros em seu último livro, o mais conhecido: "1984", que guarda semelhanças com "Admirável Mundo Novo" (1932), de seu companheiro de escola Aldous Huxley. George Orwell foi um dos mais influentes escritores políticos do século 20, dado o alcance histórico e geográfico de sua literatura. A propósito, a expressão guerra fria, que marcou a segunda metade do século, apareceu pela primeira vez num artigo de Orwell, de acordo com o registro do Oxford English Dictionary.
1984, o filme
O Grande Irmão chegou aos cinemas em adaptação inglesa dirigida por Michael Radford e estrelada por John Hurt. O roteiro é bastante fiel à obra de Orwell e mantém a atmosfera sombria e tensa do livro.
Ficha Técnica 1984
País: Inglaterra
Ano de produção: 1984
Direção: Michael Radford
Elenco: John Hurt, Richard Burton, Suzanna Hamilton, Cyril Cusack, Gregor Fisher, James Walker.
Duração: 113 min.
Reprodução
TRAIÇÃO?
O Leão e o Unicórnio Publicado em "Por que escrevo e outras histórias", o ensaio "O Leão e o Unicórnio: O Socialismo e o Gênio Inglês" é o texto mais intervencionista de Orwell. Publicado em plena Segunda Guerra Mundial, o texto critica fortemente a passividade inglesa em relação ao totalitarismo de Hitler e defende a visão socialista da economia. Também critica fortemente o pensamento de esquerda inglês, quer por ser favorável à tirania soviética, quer por ser o produto de intelectuais desligados da realidade. A frase que abre o ensaio é antológica: "Enquanto escrevo, seres humanos civilizadíssimos sobrevoam-me, tentando me matar".
O escritor morreu de tuberculose em Londres, em 21 de janeiro de 1950, com 47 anos incompletos. Antes, porém, envolveuse num polêmico episódio no qual, segundo alguns historiadores, ele teria denunciado ao governo britânico 130 suspeitos de comunismo. Outros acreditam que Orwell apenas forneceu uma lista de nomes para que essas pessoas não viessem a receber propaganda anticomunista. Segundo consta, aqueles acusados não sofreram nenhuma retaliação.
Passadas décadas desde esses acontecimentos, interessa-nos perguntar qual a utilidade de ler o autor ainda hoje, quando seus maiores adversários políticos - o imperialismo, o fascismo e o comunismo - estão praticamente derrotados. Afinal, foi exatamente nos anos 1980 que começou a cair o regime soviético que inspirou 1984...
Há muitas respostas possíveis, entre elas a de que Orwell merece ser lido, mais que por interesse histórico, pela honestidade, coragem e fidelidade aos ideais em que acreditava. "Capaz de exagerar com a simplicidade e a inocência de um selvagem", como disse Pritchett ao resenhar "O Leão e o Unicórnio", o escritor tem uma importante lição a nos transmitir sobre engajamento e paixão na literatura, ainda mais útil num tempo como o atual, em que predominam o individualismo e a apatia.
(*) Sergio Amaral Silva é jornalista e escritor, ganhador do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, categoria Literatura.
BIG BROTHER , O ORIGINAL
No livro "1984", publicado pela primeira vez em 1949, Orwel imag inou uma sociedade futura em que uma simples ideia podia ser considerada crime.
Nesse ambiente opressivo, todas as pessoas eram permanentemente vigiadas por teletelas, sentindo-se invadidas e sem direito a qualquer privacidade. No comando de tudo, estava o chefe supremo do Partido Único, o Grande Irmão (no original, Big Brother). Onipresente, ele é visto nas telas e cartazes espalhados por toda a parte. Apesar disso, jamais aparece em público, podendo mesmo não ser uma pessoa real. A reafirmação do slogan "O Grande Irmão zela por ti", de seus feitos e liderança conduzem o povo a acreditar em sua presença.
Querendo situar aquele regime num futuro mais ou menos longínquo, Orwell inverteu os dois algarismos finais do ano em que escrevia. Debaixo da atmosfera opressiva, o personagem principal, Winston Smith, é um funcionário do Ministério da Verdade, encarregado de criticar a imprensa, modificando, até mesmo, o registro de fatos já ocorridos, para que o Partido permaneça no poder.
Alguns estudiosos da obra de Orwell associam o Grande Irmão ao ditador soviético Joseph Stalin, com alguns toques da propaganda nazi-fascista. Mas ele pode também ser vinculado a algumas religiões, porque está em todos os lugares e vigia todos os passos. Controlando as emoções, o Partido exerce uma espécie de liderança invisível, comparável à de certas igrejas. "Só obedeço ordens" e "Isto é um dogma" são frases que justificam um poder inquestionável.
A figura do Grande Irmão domina, assim, toda a sociedade e manipula até a forma de pensar dos indivíduos. Com o sucesso do livro, a expressão inglesa se tornou internacionalmente conhecida. Em 1999, John de Mol, executivo da TV holandesa e sócio da companhia Endemol, criou um "reality show" cujos participantes são selecionados entre pessoas comuns que não se conhecem previamente e passam a conviver numa casa, onde permanecem confinados por várias semanas, observados por câmeras 24 horas.
O nome escolhido para o programa foi ... Big Brother, adotado assim mesmo, no original, em vários países de língua não inglesa que o apresentam em produções locais, como o Brasil e Portugal. No entanto, nas versões do livro publicadas no Brasil, o personagem assustador aparece com o nome traduzido de Grande Irmão. Mesmo considerado por muitos críticos como inferior a "A Revolução dos Bichos" do ponto de vista literário, "1984" representa hoje bem mais que um panfleto. Todavia, há os que ainda lhe negam a condição de romance, como o escritor Milan Kundera, que declarou tratar-se de um "pensamento político encapotado".
"A Revolução dos Bichos", versão rock'n'roll
"A Revolução dos Bichos", versão rock'n'roll
A influência da obra de George Orwell se estendeu até o rock progressivo. No seu décimo álbum, "Animals", a banda Pink Floyd se inspirou no livro "A Revolução dos Bichos" para compor letras que falam sobre as contradições e as injustiças da sociedade capitalista. O álbum marcou época, a começar pela capa, composta por uma sobreposição de duas imagens. A primeira é da usina elétrica Battersea Power Station, instalada às margens do rio Tâmisa. A segunda imagem tem uma história curiosa. A banda encomendou que a fábrica alemã Ballon Fabrik, a mesma responsável pelos famosos Zepelins, construísse um "balão" gigantesco em formato de porco, que foi inflado com gás hélio. O porco, no entanto, acabou se soltando do cabo e passou a flutuar pelo céu de Londres, até ir pousar na cidade de Kent. As imagens captadas no episódio foram usadas na divulgação do álbum e nos shows da banda, e a capa do álbum mostra o "dirigível" de porco flutuando sobre a usina elétrica inglesa.




Fonte :
http://literatura.uol.com.br/literatura/figuras-linguagem/24/artigo144825-1.asp



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